IPTU Verde

Na tentativa de tentar intercalar posts contendo maus e bons exemplos, o assunto agora é a feliz iniciativa de alguns municípios em implantar o IPTU verde, que estimula os munícipes a adotarem boas práticas sustentáveis em suas residências e condomínios através do desconto no valor do IPTU.

Em Guarulhos, a lei municipal lei 6.793/10 prevê desconto no IPTU de até 20% a partir de 2012 para quem implantar duas ou mais das seguintes medidas: uso de aquecimento solar, captação de água de chuva, reuso da água, coleta seletiva de lixo, sistema natural de iluminação, construção com materiais sustentáveis e telhado verde. Os abatimentos serão de até 5% para os imóveis residenciais ou comerciais construídos que tenham árvores na calçada, no terreno, no quintal gramado ou de terra.

A Prefeitura de São Carlos foi pioneira e vem desde 2008 concedendo descontos de até 4% no IPTU para as residências com árvores nas calçadas e área permeável no terreno, além de distribuir mudas no Horto Florestal. Segundo reportagem da Folha de São Paulo de outubro de 2010, em 2007, quando o programa foi aprovado, 2.412 pessoas solicitaram o desconto, deferidos no ano seguinte. Em 2010, esse número subiu para 5.596, algo próximo a 5% do total de contribuintes da cidade. Além disso, através do serviço Disque Árvore o munícipe faz o pedido e recebe, gratuitamente, até duas mudas por mês em casa.  

Em São Vicente, o IPTU Verde dá desconto para ações como tratamento de esgoto, sistema elétrico solar e bacias sanitárias com duplo fluxo. Quem ainda mantiver 15% da área do lote permeável ganha 7% de desconto no imposto. Já São Bernardo do Campo concede desconto de até 80% a terrenos que estejam com significativa área de vegetação mantida. Hoje, mais de 600 imóveis se beneficiam. Em Sorocaba, depois de anos tramitando, o projeto de lei que institui o IPTU verde finalmente foi aprovado em maio deste ano, prevendo a concessão de descontos de até 5% no imposto para aqueles que mantem ou plantam árvores nas calçadas e implantam ações sustentáveis como telhado verde, captação de água, etc. Outras cidades já estão com projetos para implantação de IPTU verde, como Mogi e Campinas. Agora é preciso a articulação necessária para aprimorar a ideia e implantá-la em outras cidades, incluindo capitais como São Paulo.

Eu particularmente acho que essa iniciativa poderia vir de todos pelo simples motivo de podermos reduzir nossos impactos através de práticas mais adequadas e sustentáveis. No entanto, incentivos fiscais são também sempre bem vindos, além de mostrar boa vontade de determinados setores da gestão pública em promover a melhoraria da qualidade de vida nas cidades. Só espero que essas iniciativas sejam bem divulgadas, assim como fiscalizadas para coibir aqueles que só visam o desconto e não mantém suas ações nos anos seguintes.

Exemplo de uma rua arborizada e com calçada com muita área permeável. Como seria bom replicar esse modelo para tantas vias áridas da metrópole. (Foto: CMRech)

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Árvores e fiação elétrica nas cidades: quem ganha a guerra?

Quando me pedem para citar um grande obstáculo para a arborização urbana adequada, menciono de imediato a fiação elétrica das nossas ruas. Quem teve a oportunidade de sair do Brasil já deve ter percebido que na maioria dos países ricos (ou que um dia já o foram) não existe rede elétrica aérea, é tudo subterrâneo, diminuindo a poluição visual e deixando as calçadas livres apenas para pedestres e árvores.

Aqui no Brasil, infelizmente, abundam casos que ilustram nossa infraestrutura precária, e a fiação elétrica aérea é um exemplo clássico disso. As cidades tornam-se mais feias, com aquele emaranhado de cabos e fios para todos os lados, interferindo também no valor estético da arquitetura de casas e prédios. Como se não bastasse, limita a presença de árvores abaixo dessa fiação, comprometendo ainda mais a qualidade de vida urbana. E para piorar de vez, esse modelo é inseguro e deixa nosso sistema de fornecimento de energia elétrica vulnerável a intempéries diversas, e as árvores nas calçadas passam a ser consideradas vilãs, quando na verdade são mais uma vítima do nosso despreparo.

Basta começar a temporada das chuvas para sofrermos com a falta de energia decorrente da queda de árvores e galhos sobre postes e fiações elétricas. Na tentativa de manter a péssima rede elétrica brasileira e reduzir custos operacionais, muitas empresas de distribuição elétrica têm promovido campanhas para o plantio de arbustos e arvoretas nas calçadas, com aplicação de podas de rebaixamento ou corte das árvores cuja altura superar os 5 metros. Essas medidas reduzem a cobertura vegetal da cidade e os serviços ambientais prestados pela arborização urbana, como sombra, ornamentação, regulação do microclima, filtragem de poluentes, barreira sonora, atração de animais, etc. Basta comparar um arbusto em uma calçada com uma grande árvore que poderia estar lá, quanta diferença não?

Um exemplo clássico é o da CESP, que vem implantando programas de “adequação” da arborização urbana em várias cidades paulistas. No município de Tatuí, por exemplo, a empresa reduziu problemas causados à rede elétrica substituindo todas as árvores de grande porte (incluindo patas-de-vaca e sibipirunas) por resedás e manacás-roxos, espécies de menor porte. Além do assassinato em massa de árvores centenárias, não precisa nem dizer o que aconteceu com o sombreamento na cidade né? Sem dizer que plantar apenas duas espécies pela cidade implica em reduzir a diversidade e heterogeneidade ambiental, simplificando ainda mais o ecossistema urbano. Mas enfim, a CESP deve estar feliz por manter seus horrorosos fios e cabos suspensos e gastar menos com a manutenção da rede e com podas de árvores. O pior é que a empresa ainda tem orgulho de dizer que a cidade ficou mais iluminada a noite por conta dessa ação!

Já as árvores de maior parte que ainda foram poupadas e resistem em meio às fiações, estão sujeitas a constantes podas, em geral mal feitas, o que muitas vezes acaba comprometendo o espécime mutilado, tornando-o mais susceptível a doenças e podendo ocasionar sua morte ou mesmo a perda de sua estabilidade e consequente queda.

No meio desse caos, onde quem sempre perde são as árvores e os cidadãos, existem alternativas que precisam ser pensadas. Além da rede elétrica convencional, existe a compacta (também aérea) e a subterrânea. A compacta é melhor que a convencional, reduzindo parte dos problemas, mas longe dos benefícios oferecidos pela rede subterrânea. Mesmo demandando custos de implantação superiores às redes convencionais, as redes compactas e subterrâneas são mais vantajosas por exigirem menos gastos com manutenção e afetarem menos o desenvolvimento das árvores nas calçadas. Aqui em São Paulo, a rede vem sendo gradualmente substituída pela compacta, o que já é um avanço. Já o aterramento da nossa rede elétrica parece ser mesmo um sonho que nem minha filha verá concretizado.

Ainda aqui em São Paulo, as podas das árvores são permitidas apenas a funcionários da Prefeitura ou por funcionários de empresas concessionárias de serviços públicos mediante parecer do engenheiro agrônomo responsável. Além disso, uma série de instrumentos legais regulamenta a poda e corte de árvores na cidade. No entanto, os casos de podas drásticas não são raros, o que denota falta de fiscalização e funcionários despreparados. Ainda assim, é crescente a realização de podas mais adequadas, como a de formação (retirada de galhos laterais durante o crescimento da muda) e a de limpeza (para remover ramos mortos e danificados). Em relação às árvores de maior porte em meio à fiação, o ideal é a realização de podas direcionais (que direcionam o crescimento dos galhos para fora dos condutores da rede elétrica), devendo ser banidas as podas em formato de L, V ou de rebaixamento de copa, que mutilam as árvores e as desestabilizam.

Exemplo de poda em formato de V, infelizmente muito comum. Essa poda descaracteriza a árvore, dá um aspecto de mutilação, e pode enfraquecer e desestabilizar a árvore (foto: blog neutro)

Exemplo da miniaturização da arborização urbana sob a fiação elétrica. Essas três palmeirinhas jamais conseguirão compensar os benefícios que teríamos se tivéssemos árvores aí plantadas, como sombra, atração de aves, filtragem de poluentes, etc.

Exemplo de como a fiação elétrica aérea inibe a arborização urbana. Na calçada sob a fiação, praticamente nenhuma árvore, enquanto na outra calçada, sem fios, vemos a presença de árvores de grande porte.

Exemplo de poda em L produzindo espécimes com aspecto mutante, além de favorecer a desestabilização dos mesmos por chegar até a desafiar a lei da gravidade.

Esse é um exemplo de como colecionar erros. Plantaram um Ficus benjamina, espécies exótica e invasora de grande porte, em uma calçada, sem canteiro permeável, sob fiação elétrica e ao lado de um poste!!!

 

Em São Paulo, algumas avenidas e condomínios aterraram as fiações elétricas. Na foto vemos a Av. 9 de julho após implantação de corredor de ônibus, aterramento da rede elétrica, readequação de canteiro central e calçadas e plantio de mudas de árvores. Um bom exemplo, como já foi feito nas ruas João Cachoeira e Oscar Freire e avenidas Rebouças e Paulista. Em poucos anos as árvores crescidas trarão ainda mais qualidade de vida para quem transita nessas vias.

 

 

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Futuro plantio de árvores em São Paulo

Em breve faremos o plantio de 34 árvores, sendo 20 na Av. 23 de Maio e 14 na Av. Antônio J. de Moura Andrade, entre a Santo Amaro e a República do Líbano. O plantio faz parte de um projeto de reparação de dano ambiental vinculado a um termo de ajustamento de conduta (TAC), resultado de uma autuação que uma empresa recebeu por ter cortado um Ficus sem autorização. Um mal que veio para bem, pois a cidade ganhará 34 exemplares de importantes espécies nativas que escolhi com cuidado.

O difícil foi selecionar as espécies em uma lista com tantas que gostaria de ver espalhadas pela cidade. O martelo foi batido em 14 espécies: 6 cambucis (Campomanesia phaea), 3 pitangueiras (Eugenia uniflora), 2 caputunas-pretas (Metrodorea nigra), 3 ipês-roxos (Androanthus heptaphylla), 2 tamanqueiros (Aegiphila sellowiana), 3 frutos-de-pombo (Allophylus edulis), 2 carobas (Jacaranda macranta), 2 aroeiras (Schinus terebinthifolius), 3 aleluias (Senna multijulga), 3 copaíbas (Copaifera langsdorffii), 1 camboatã (Cupania vernalis), 1 mirindiba-rosa (Lafoensia glyptocarpa), 2 jacarandás-paulistas (Machaerium villosum), 2 canelas-sassafraz (Ocotea odorifera).

 

A escolha das espécies e dos locais, obviamente, atende uma série de critérios, como distâncias de postes e placas, larguras das calçadas e canteiros, presença de fiação elétrica aérea, porte da árvore quando adulta, seu poder de atrair a fauna, etc. As fotos abaixo mostram alguns trechos selecionados para o plantio, com os cones sinalizando onde serão plantadas as mudas.

Nesse canteiro da Av 23 de Maio serão plantadas três mudas de árvores de grande porte, que no futuro fornecerão mais qualidade de vida aos paulistanos, atrairão a avifauna e auxiliarão na dispersão das sementes pela cidade. Serão plantadas aí copaíba e jacarandá-paulista, espécies nativas bastante raras em São Paulo hoje em dia, infelizmente.

Aqui aproveitaremos os locais já existentes para o plantio das mudas

Também na Av. 23 de Maio, aqui serão plantadas árvores de menor porte dada a proximidade entre as covas. Para isso, escolhemos duas espécies típicas da flora paulistana e produtoras de frutos que muitas aves adoram: cambuci e pitanga

Nesse canteiro mais largo cabem mudas de árvores de grande porte, por isso mais copaíba e mirindiba-rosa. Fica no retorno da Av Antonio Moura Andrade (Av República do Líbano a esquerda)

Nesse longo canteiro da Av Antonio J. de Moura Andrade serão plantadas aroeiras, caputunas-pretas, tamanqueiros e canelas. Vai ficar lindo!

Nesse canteiro removeremos algumas azaleias para plantar três cambucis, mostrando que, sabendo usar bem os espaços, conseguimos resgatar a flora nativa de várias formas.

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O bosque da Casa Modernista

Nesse fim de semana fui visitar a Casa Modernista, localizada na Rua Santa Cruz, Vila Mariana. A casa foi projetada em 1927 pelo arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik, que residiu ali por anos com sua mulher, Mina Klabin. A casa é considerada a primeira obra de arquitetura moderna implantada no Brasil, construída em um período em que São Paulo passava por um intenso processo de industrialização e urbanização, com a formação de uma burguesia sintonizada com os costumes da belle époque parisiense e a intensificação de imigração para fornecimento de mão-de-obra fabril. No campo cultural, a cidade testemunhava manifestações artísticas de ruptura e diálogo com a tradição nas áreas da literatura, das artes plásticas e da música, como aconteceu com a Semana de Arte Moderna de 1922.

No entanto, o que me chamou a atenção foi o bosque projetado por Mina Klabin, que inovou também e, ao invés de seguir a moda da época de reproduzir jardins europeus, priorizou o uso pioneiro de espécies tropicais, incluindo nativas. Interessante também é observar o bosque de eucaliptos rente ao muro frontal, idealizado com o objetivo de resguardar a família do hospital nipo-brasileiro que estava em construção em frente a casa (judeus e japoneses estavam em lados opostos na guerra).

A família residiu ali até meados dos anos 70, quando decidiu então vender a propriedade. Em 1983 uma construtora idealizou um projeto para implantar na área um condomínio residencial, combatido pela população local que criou a “Associação Pró-Parque Modernista” para defender a casa e a sua área verde.

Em 1984, o Condephaat tombou o conjunto, seguido pelo Iphan e Conpresp. Com isso, o empreendimento se inviabilizou e os proprietários entraram na justiça contra o Estado, período em que o imóvel permaneceu abandonado, Em 1994 foi dada a sentença, na qual o Estado foi obrigado a indenizar o proprietário e a comprar o imóvel, embora isso não tenha revertido o processo de deterioração. Foi somente nos anos 2000 que se realizaram projetos e obras para a recuperação do imóvel. Com orçamento reduzido, no entanto, somente a casa principal foi objeto de restauro e conservação. Em março de 2008, a prefeitura do município de São Paulo passou a ser permissionária do imóvel, tendo a responsabilidade pelo seu uso e manutenção.

Trabalhos emergenciais foram realizados para a reabertura do parque e da casa em agosto de 2008. Em breve, o conjunto passará por completa recuperação, como merece este bem tão importante para a memória da cidade. Uma funcionária do Museu me informou que a gestão é compartilhada entre as Secretarias de Cultura, que cuida da Casa Modernista, e a do Verde e Meio Ambiente, que cuida do Parque Modernista. Em breve, segundo ela, técnicos farão a identificação das espécies de árvores e colocarão placas informativas para o público.

Além das árvores remanescentes do jardim projetado pela Mina Klabin, algumas outras que vemos no bosque parecem ter se desenvolvido ali de forma espontânea durante os anos em que a casa esteve abandonada, como alguns guapuruvus, paus-jacaré e embaúbas, espécies paulistanas que comprovam o poder de recuperação da nossa flora nativa. O destaque fica também para um grande pinheiro que identifiquei como Agathis robusta, espécie australiana da família das araucárias, plantado na lateral da casa junto a uma varanda. Destaco também uma enorme copaíba, espécie nativa que tenho adoração, tanto pelo seu porte como pela sua raridade (infelizmente) e poder de produção de muitas sementes que são disseminadas por aves. Uma copaíba parece ter sido plantada, uma vez que acredito já ter uma idade próxima da construção da Casa, mas outra que achei lá é mais jovem, e talvez tenha sido disseminada a partir dessa mais velha. Vale a visita!

Exemplar mais antigo de Copaiba (Copaifera langsdorffii)

Exemplar mais jovem de copaíba, provavelmente filho da anterior

Grumixama (Eugenia brasiliensis), espécie nativa produtora de frutos apreciados pelas aves

Acredito ser uma goiaba-brava (Myrcia tomentosa), espécie nativa da mesma família da grumixama (Myrtaceae), também produtora de frutos que atraem aves

Guapuruvu (Schizolobium parahyba), espécie pioneira nativa

Pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha), espécie nativa com tronco bem característico

Jambo-amarelo (Syzygium jambos), espécie da Índia e Malásia bastante cultivada no Brasil. Seus frutos são consumidos por diversos animais.

Imponente exemplar de Agathis robusta, espécie australiana da família das araucárias.

Vista da Agathis através do quarto superior

Uma das entradas da Casa Modernista

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Sakura e Hanami – a floração das cerejeiras no Parque do Carmo

Hoje fui até o Parque do Carmo para conhecê-lo e, principalmente, ver a floração das cerejeiras (gênero Prunus), cujas flores são chamadas de Sakura no Japão. São mais de 2.300 cerejeiras espalhadas por um belo bosque, formando a segunda maior concentração dessas árvores fora do Japão (a primeira fica em Washington). A floração das cerejeiras aqui em São Paulo ocorre no começo de agosto e dura apenas alguns dias. O auge foi no fim de semana passado, mas consegui ver alguma coisa hoje. Agora só ano que vem.

A flor da cerejeira é símbolo nacional do Japão, representando felicidade, renovação e esperança. Durante a Sakura, é tradição no Japão as pessoas aproveitam para fazer o Hanami, que significaolhar as flores”. Eu aproveitei e fiz o meu Hanami hoje, mas ano que vem irei durante a semana (mais tranquilo) e com uma máquina melhor. Abaixo coloco as fotos que fiz com o celular mesmo, além de uma da semana passada da CBN que ilustra melhor.

Sakura, flor da cerejeira

Hanami, olhando as cerejeiras (CBN)

Cerejeiras no Parque do Carmo

 

 

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O dilema das árvores nativas versus exóticas

Hoje o desafio é escrever em poucas palavras o que eu transformaria em uma tese, de tanta informação para ser apresentada e debatida. Empenharei esforços apenas para introduzir o assunto, já que certamente ele voltará em futuros posts. E o tema é: árvores exóticas versus árvores nativas, lembrando que isso se aplica a todos os outros tipos de plantas e animais, já que o conceito é o mesmo. As nativas, vale lembrar, são as espécies com ocorrência natural em nosso país, enquanto as exóticas não ocorrem naturalmente por aqui, ou seja, foram introduzidas por alguém. As espécies nativas tiveram sua história evolutiva aqui e constituem a nossa biodiversidade. As exóticas começaram a ser em trazidas pelos colonizadores portugueses, tanto da própria Europa como de locais por onde eles passavam. Mais tarde, os imigrantes (principalmente europeus e japoneses) trouxeram outras tantas espécies, configurando um processo de introdução de espécies exóticas que se estende até hoje. Muitos paisagistas, como Burle Marx, também se utilizaram de exóticas, contribuindo para a difusão das mesmas em nosso território. Mesmo no início do século passado, quando São Paulo experimentou um enorme crescimento, o concreto ocupou o lugar dos remanescentes florestais nativos e espécies exóticas foram priorizadas na arborização urbana, como tipuanas (Bolívia), flamboyans (Madagascar), alfeneiros (Japão), cássias (Ásia), figueiras (Índia), eucaliptos, casuarinas e palmeiras seafórtias (Austrália), ciprestes (Portugal), etc. Consequência disso é que as espécies exóticas são maioria no espaço urbano da nossa cidade, desempenhando inúmeras funções, como ornamentação, sombreamento, barreira contra vento, fornecimento de fruto e madeira, etc.. De tão comuns, atualmente se encontram arraigadas na cultura popular de tal forma que é difícil sabermos quais espécies são nativas e quais são exóticas. No entanto, os processos mencionados acima contribuíram não só para a extinção de parte da nossa flora nativa, como também da fauna que coevoluiu com ela, sobrando algumas espécies mais plásticas e generalistas, como as que vemos pela cidade hoje em dia. Daí a questão: se todas as plantas são lindas e importantes pelos serviços ambientais prestados, para quê a distinção entre exóticas e nativas? Simples: para reparar parte da histórica injustiça contra as nossas espécies e dar-lhes o devido valor, entendendo que existem períodos diversos na construção de uma nação e que esse é o momento das nativas. E devolvo com outra pergunta: para que tanta espécie exótica se São Paulo tem o privilégio de estar localizada em um planalto entre a Serra do Mar e a Cantareira, onde originalmente havia uma vasta floresta ombrófila densa, genericamente denominada Mata Atlântica, bioma que detém uma das maiores biodiversidades do planeta?!? Isso sem mencionar os remanescentes naturais de cerrado que também ocorriam e ocorrem em São Paulo, contribuindo ainda mais para a heterogeneidade ambiental e biodiversidade. Não seria coerente se, aos poucos, fôssemos substituindo as exóticas por nativas conforme os espécimes mais velhos forem completando seus ciclos de vida? Trazendo a vegetação nativa de volta para a cidade estaremos contribuindo também para o retorno de muitas espécies da nossa fauna, que poderiam tranquilamente dividir o espaço urbano com a gente de forma mais justa e equilibrada. Parece simples, mas não é, pois exige uma mudança de paradigmas que afeta vários setores, desde nossos hábitos alimentares até os estéticos, passando por outros tantos. Exemplos: 1) apesar de termos centenas de espécies nativas que produzem frutos comestíveis, apenas três das vinte frutas mais consumidas no Brasil são nativas! (informação de @ricardocardim); 2) apreciamos lindos projetos paisagísticos com espécies exóticas e não sabemos que existem espécies nativas equivalentes que desempenhariam a mesma função estética; 3) plantamos aquele Ficus e aquele pinheiro que sobrou do Natal no chão e não damos conta que são espécies exóticas invasoras; 4) plantamos palmeiras exóticas e invasoras (como a super agressiva seafórtia) e incluímos na lista de extinção do Estado a nativa palmeira-juçara, lindíssima e cujos frutos alimentam centenas de espécies animais da Mata Atlântica. E por aí vai. Para finalizar, deixo claro que não se trata de uma guerra declarada contra as espécies exóticas, mesmo porque reconheço a importância delas, apenas peço por um despertar em relação as nossas nativas, e que na balança elas sejam priorizadas em detrimento das “gringas”.

Algumas desvantagens das exóticas:

– são menos adaptadas às condições ambientais daqui e por isso mais sujeitas a doenças, cupins e outros males;

– muitas espécies possuem comportamento agressivo, se dispersam facilmente, competindo com as nossas nativas e muitas vezes as substituindo;

– são menos atrativas para a fauna local que coevoluiu com as nossas nativas

Algumas vantagens das nativas:

– são mais adaptadas às nossas condições ambientais e por isso mais resistentes;

– são fonte de alimento e abrigo para inúmeras espécies animais;

– proporcionam o resgate da nossa biodiversidade tão rica e ameaçada.

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Florações outono-inverno 2011

O fim do outono e início do inverno não nos dão apenas lindos dias de céu azul com poucas (ou nenhuma) nuvens, como também é a época de floração de muitas árvores. Em Sampa destacam-se as espatódeas, patas-de-vaca, eritrinas e ipês, espécies das mais comuns na arborização urbana da nossa cidade. As espatódeas (Spathodea campanulata), também chamadas tulipas-africanas, são árvores exóticas originárias da África e muito comuns nas nossas calçadas, principalmente exemplares grandes plantados até a metade do século passado. Hoje em dia o plantio de mudas da espécie é raro, uma vez que não é adequada para passeios públicos, dada a espessura exagerada do tronco dos espécimes adultos e o comportamento invasivo das raízes (além, óbvio, de não serem nativas). Aqui em Sampa sua belíssima floração começa em maio e agora em agosto já é raro achar uma espatódea com flor. As patas-de-vaca, do gênero Bauhinia, são muito comuns na arborização urbana mais recente da cidade, sendo muito plantada ainda atualmente. O nome se dá pelo formato da folha, que parece uma pata de vaca, mas também a chamam de árvore-orquídea, dada a beleza de suas flores que se assemelham com as famosas epífitas. Em Sampa, a maioria das patas-de-vaca nas áreas verdes e passeios são de espécies exóticas, com apenas uma representante nativa (Bauhinia forficata), que produz flores brancas só a partir de outubro. Por enquanto, olhemos para a floração das exóticas mesmo, na maioria em tons de lilás, rosa e branco. Já os ipês são representados, aqui no Brasil, por dezenas de espécies de dois gêneros principais (Tabebuia e Handroanthus), muitas nativas também do estado de São Paulo. A ressalva é a grande presença de Tabebuia pentaphylla, um ipê-rosa exótico típico da América Central e bastante plantado por aqui (a rua que moro está cheia deles). Ele difere dos demais ipês por ter folhas maiores e por, normalmente, apresentar floração com presença de folhas (os nossos nativos geralmente perdem todas as folhas durante a floração).  Embora o tempo de floração de muitas espécies varie entre os indivíduos e entre os anos, consequência do clima e de outros fatores, as florações dos ipês são um espetáculo a parte e ocorrem entre o outono e o inverno. Os ipês-roxos estão espalhados pela cidade e repletos de flores, embora muitos já estejam “pelados”. Os ipês-amarelos também estão florindo e em breve estarão os ipês-brancos, mas já dá para ver alguns florindo. Por fim, as eritrinas, ou mulungus (Erythrina speciosa), são árvores de pequeno porte, com troncos tortuosos e espinhosos, originárias da nossa floresta pluvial atlântica, principalmente entre Espírito Santo e Paraná. Suas flores são lindíssimas e muito apreciadas pelas aves, por isso ideais para a nossa cidade. E é isso, agora é pegar a máquina, se posicionar embaixo de uma dessas árvores e fotografá-la com o céu azul de fundo para dar o contraste perfeito. Abaixo algumas fotos que tirei hoje com o celular mesmo, só para ilustrar.

Espatódea ainda com flores
Detalhe das flores da espatódea
Pata-de-vaca em rua do City Butantã
Pata-de-vaca na Av. Vital Brasil
Flor branca de pata-de-vaca
Ipê-roxo no Ibirapuera – Handroanthus heptaphylla
Outro ipê-roxo no Ibira
Um ipê-roxo em Moema, ilustrando o destaque da cor de suas flores na paisagem urbana
Ipê-amarelo
Eritrina na Alameda Santos
Eritrina entre o Trianon e o Masp

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