Árvores e fiação elétrica nas cidades: quem ganha a guerra?

Quando me pedem para citar um grande obstáculo para a arborização urbana adequada, menciono de imediato a fiação elétrica das nossas ruas. Quem teve a oportunidade de sair do Brasil já deve ter percebido que na maioria dos países ricos (ou que um dia já o foram) não existe rede elétrica aérea, é tudo subterrâneo, diminuindo a poluição visual e deixando as calçadas livres apenas para pedestres e árvores.

Aqui no Brasil, infelizmente, abundam casos que ilustram nossa infraestrutura precária, e a fiação elétrica aérea é um exemplo clássico disso. As cidades tornam-se mais feias, com aquele emaranhado de cabos e fios para todos os lados, interferindo também no valor estético da arquitetura de casas e prédios. Como se não bastasse, limita a presença de árvores abaixo dessa fiação, comprometendo ainda mais a qualidade de vida urbana. E para piorar de vez, esse modelo é inseguro e deixa nosso sistema de fornecimento de energia elétrica vulnerável a intempéries diversas, e as árvores nas calçadas passam a ser consideradas vilãs, quando na verdade são mais uma vítima do nosso despreparo.

Basta começar a temporada das chuvas para sofrermos com a falta de energia decorrente da queda de árvores e galhos sobre postes e fiações elétricas. Na tentativa de manter a péssima rede elétrica brasileira e reduzir custos operacionais, muitas empresas de distribuição elétrica têm promovido campanhas para o plantio de arbustos e arvoretas nas calçadas, com aplicação de podas de rebaixamento ou corte das árvores cuja altura superar os 5 metros. Essas medidas reduzem a cobertura vegetal da cidade e os serviços ambientais prestados pela arborização urbana, como sombra, ornamentação, regulação do microclima, filtragem de poluentes, barreira sonora, atração de animais, etc. Basta comparar um arbusto em uma calçada com uma grande árvore que poderia estar lá, quanta diferença não?

Um exemplo clássico é o da CESP, que vem implantando programas de “adequação” da arborização urbana em várias cidades paulistas. No município de Tatuí, por exemplo, a empresa reduziu problemas causados à rede elétrica substituindo todas as árvores de grande porte (incluindo patas-de-vaca e sibipirunas) por resedás e manacás-roxos, espécies de menor porte. Além do assassinato em massa de árvores centenárias, não precisa nem dizer o que aconteceu com o sombreamento na cidade né? Sem dizer que plantar apenas duas espécies pela cidade implica em reduzir a diversidade e heterogeneidade ambiental, simplificando ainda mais o ecossistema urbano. Mas enfim, a CESP deve estar feliz por manter seus horrorosos fios e cabos suspensos e gastar menos com a manutenção da rede e com podas de árvores. O pior é que a empresa ainda tem orgulho de dizer que a cidade ficou mais iluminada a noite por conta dessa ação!

Já as árvores de maior parte que ainda foram poupadas e resistem em meio às fiações, estão sujeitas a constantes podas, em geral mal feitas, o que muitas vezes acaba comprometendo o espécime mutilado, tornando-o mais susceptível a doenças e podendo ocasionar sua morte ou mesmo a perda de sua estabilidade e consequente queda.

No meio desse caos, onde quem sempre perde são as árvores e os cidadãos, existem alternativas que precisam ser pensadas. Além da rede elétrica convencional, existe a compacta (também aérea) e a subterrânea. A compacta é melhor que a convencional, reduzindo parte dos problemas, mas longe dos benefícios oferecidos pela rede subterrânea. Mesmo demandando custos de implantação superiores às redes convencionais, as redes compactas e subterrâneas são mais vantajosas por exigirem menos gastos com manutenção e afetarem menos o desenvolvimento das árvores nas calçadas. Aqui em São Paulo, a rede vem sendo gradualmente substituída pela compacta, o que já é um avanço. Já o aterramento da nossa rede elétrica parece ser mesmo um sonho que nem minha filha verá concretizado.

Ainda aqui em São Paulo, as podas das árvores são permitidas apenas a funcionários da Prefeitura ou por funcionários de empresas concessionárias de serviços públicos mediante parecer do engenheiro agrônomo responsável. Além disso, uma série de instrumentos legais regulamenta a poda e corte de árvores na cidade. No entanto, os casos de podas drásticas não são raros, o que denota falta de fiscalização e funcionários despreparados. Ainda assim, é crescente a realização de podas mais adequadas, como a de formação (retirada de galhos laterais durante o crescimento da muda) e a de limpeza (para remover ramos mortos e danificados). Em relação às árvores de maior porte em meio à fiação, o ideal é a realização de podas direcionais (que direcionam o crescimento dos galhos para fora dos condutores da rede elétrica), devendo ser banidas as podas em formato de L, V ou de rebaixamento de copa, que mutilam as árvores e as desestabilizam.

Exemplo de poda em formato de V, infelizmente muito comum. Essa poda descaracteriza a árvore, dá um aspecto de mutilação, e pode enfraquecer e desestabilizar a árvore (foto: blog neutro)

Exemplo da miniaturização da arborização urbana sob a fiação elétrica. Essas três palmeirinhas jamais conseguirão compensar os benefícios que teríamos se tivéssemos árvores aí plantadas, como sombra, atração de aves, filtragem de poluentes, etc.

Exemplo de como a fiação elétrica aérea inibe a arborização urbana. Na calçada sob a fiação, praticamente nenhuma árvore, enquanto na outra calçada, sem fios, vemos a presença de árvores de grande porte.

Exemplo de poda em L produzindo espécimes com aspecto mutante, além de favorecer a desestabilização dos mesmos por chegar até a desafiar a lei da gravidade.

Esse é um exemplo de como colecionar erros. Plantaram um Ficus benjamina, espécies exótica e invasora de grande porte, em uma calçada, sem canteiro permeável, sob fiação elétrica e ao lado de um poste!!!

 

Em São Paulo, algumas avenidas e condomínios aterraram as fiações elétricas. Na foto vemos a Av. 9 de julho após implantação de corredor de ônibus, aterramento da rede elétrica, readequação de canteiro central e calçadas e plantio de mudas de árvores. Um bom exemplo, como já foi feito nas ruas João Cachoeira e Oscar Freire e avenidas Rebouças e Paulista. Em poucos anos as árvores crescidas trarão ainda mais qualidade de vida para quem transita nessas vias.

 

 

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12 respostas para Árvores e fiação elétrica nas cidades: quem ganha a guerra?

  1. Carlos disse:

    Não creio que o termo “guerra” seja apropriado para ilustrar essa discussão, você mesmo observou casos em que a falta de conhecimento e planejamento causaram situações desconfortáveis. Considero que tanto a arborização urbana quanto os sistemas de distribuição de energia elétrica são fundamentais para a Cidade. Cabe aos planejadores pensarem soluções que harmonizem não só esses, mas todos os equipamentos urbanos de forma que os cidadãos possam usufruir plenamente de seus benefícios.

    • Projeto Pincel disse:

      Obrigado pelo comentário Carlos, bastante pertinente. O termo guerra é pesado mesmo, e existem algumas boas alternativas para conciliarmos os equipamentos públicos e arborização nas cidades. O problema é quando optam por soluçōes arcaicas ou mais barata$, onde as árvores são as primeiras a sofrerem com as ações.

      • Carlos disse:

        Tudo se resume a falta de investimento, pesquisa e planejamento. É muito comum perceber que os atores públicos não interagem de forma organizada, raramente existem ações verdadeiramente planejadas e implementadas em conjunto. A cultura do “fazejar” impera e quem perde com isso são os cidadãos.

  2. WILSON R J MORAES disse:

    CARLOS, BOM DIA
    MORO EM UM CONDOMINIO HORIZONTAL E A FIAÇÃO (COMUN/ELETR) É ATERRADA E PASSA EM FRENTE A MINHA RESIDENCIA, MINHA PERGUNTA É A SEGUINTE:
    1 – POSSO PLANTAR UMA MIRINDIBA ROSA
    A) SUA RAIZ NÃO IRÁ DANIFICAR A TUBULAÇÃO DA FIAÇÃO
    B) SUA RAIZ NÃO IRÁ SE EXPANDIR E ESTOURAR MINHA CALÇADA.

    GRATO.

  3. existem ruas ai mesmo em são paulo e em diversas outras cidades brasileiras onde as arvores são simplesmente cortadas quando crescem e se encostam nos fios elétricos a principal vítima das motosseras é o alfeneiro ,”ligustrum” apesar de ser uma espécie exótica e invasora não deve ser tratada dessa forma concordam comigo? me chamo RODRIGO CORREIA e morro em dois vizinhos no paraná.

    • Projeto Pincel disse:

      Concordo, nenhuma árvore merece ser mutilada. Podas de correção, quando bem feitas, são aceitas por serem um mal necessário. Abraço

  4. uma notícia para a nossa alegria e também para o meio ambiente .As árvores que foram mutiladas no mês passado foram substituidas por outras ,más também exóticas e invasoras ,Ficus Benjamina é o exemplo, más é melhor do que nada não acha?
    imagine só, o que um filho de DEUS plantou na sua calçada! não é uma piada.
    plantou uma muda de Eucaliptus Citriodoro.É uma bela árvore não acha?acredito que sim, más é absolutamente inadequada para arborização urbana 1, é de grande porte e é provável que irá estourar a calçada rapidamente 2, cresce rapidamente e logo atingirá a rede de alta tensão 3, foi plantado com meio metro de distância do poste que deveria ser de pelo menos três metros 4, está situado em frente á um acesso de estacionamento privado 5, com distancia de dez centímetros do meio fil .
    É bem provável que esse eucalipto terá que ser multilado não é mesmo ?
    agradeço pela sua atenção.Valeu!!!

  5. Edesel De Paschoal disse:

    Boa noite, meu nome é Paschoal, gostaria de maiores informações sobre aterramento de fiação da rua.
    Moro em um pequeno condomínio em São Bernardo do Campo, muito bem arborizado, mas que sofre com a questão dos fios elétricos junto às árvores.
    Uma das opções seria o aterramento de toda fiação da rua. Como fazer? À quem recorrer?

  6. Raimundo disse:

    País de merda esse nosso. Não sabemos plantar árvores, nem esticar fios elétricos……..e falamos mal do Paraguai!

  7. Guilherme disse:

    Olá Nelson, tudo bem?
    primeiramente parabéns pela postagem, precisamos disseminar a ideia de que o planejamento urbano deve começar com pelos cidadãos, se formos continuar esperando pelo poder público… bom, já sabemos o resultado…

    segundo, posso utilizar a imagem da Ficus benjamina?
    farei uma palestra com os funcionários da energisa aqui de campo grande e achei esta imagem impagável

    abraços!

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