O bosque da Casa Modernista

Nesse fim de semana fui visitar a Casa Modernista, localizada na Rua Santa Cruz, Vila Mariana. A casa foi projetada em 1927 pelo arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik, que residiu ali por anos com sua mulher, Mina Klabin. A casa é considerada a primeira obra de arquitetura moderna implantada no Brasil, construída em um período em que São Paulo passava por um intenso processo de industrialização e urbanização, com a formação de uma burguesia sintonizada com os costumes da belle époque parisiense e a intensificação de imigração para fornecimento de mão-de-obra fabril. No campo cultural, a cidade testemunhava manifestações artísticas de ruptura e diálogo com a tradição nas áreas da literatura, das artes plásticas e da música, como aconteceu com a Semana de Arte Moderna de 1922.

No entanto, o que me chamou a atenção foi o bosque projetado por Mina Klabin, que inovou também e, ao invés de seguir a moda da época de reproduzir jardins europeus, priorizou o uso pioneiro de espécies tropicais, incluindo nativas. Interessante também é observar o bosque de eucaliptos rente ao muro frontal, idealizado com o objetivo de resguardar a família do hospital nipo-brasileiro que estava em construção em frente a casa (judeus e japoneses estavam em lados opostos na guerra).

A família residiu ali até meados dos anos 70, quando decidiu então vender a propriedade. Em 1983 uma construtora idealizou um projeto para implantar na área um condomínio residencial, combatido pela população local que criou a “Associação Pró-Parque Modernista” para defender a casa e a sua área verde.

Em 1984, o Condephaat tombou o conjunto, seguido pelo Iphan e Conpresp. Com isso, o empreendimento se inviabilizou e os proprietários entraram na justiça contra o Estado, período em que o imóvel permaneceu abandonado, Em 1994 foi dada a sentença, na qual o Estado foi obrigado a indenizar o proprietário e a comprar o imóvel, embora isso não tenha revertido o processo de deterioração. Foi somente nos anos 2000 que se realizaram projetos e obras para a recuperação do imóvel. Com orçamento reduzido, no entanto, somente a casa principal foi objeto de restauro e conservação. Em março de 2008, a prefeitura do município de São Paulo passou a ser permissionária do imóvel, tendo a responsabilidade pelo seu uso e manutenção.

Trabalhos emergenciais foram realizados para a reabertura do parque e da casa em agosto de 2008. Em breve, o conjunto passará por completa recuperação, como merece este bem tão importante para a memória da cidade. Uma funcionária do Museu me informou que a gestão é compartilhada entre as Secretarias de Cultura, que cuida da Casa Modernista, e a do Verde e Meio Ambiente, que cuida do Parque Modernista. Em breve, segundo ela, técnicos farão a identificação das espécies de árvores e colocarão placas informativas para o público.

Além das árvores remanescentes do jardim projetado pela Mina Klabin, algumas outras que vemos no bosque parecem ter se desenvolvido ali de forma espontânea durante os anos em que a casa esteve abandonada, como alguns guapuruvus, paus-jacaré e embaúbas, espécies paulistanas que comprovam o poder de recuperação da nossa flora nativa. O destaque fica também para um grande pinheiro que identifiquei como Agathis robusta, espécie australiana da família das araucárias, plantado na lateral da casa junto a uma varanda. Destaco também uma enorme copaíba, espécie nativa que tenho adoração, tanto pelo seu porte como pela sua raridade (infelizmente) e poder de produção de muitas sementes que são disseminadas por aves. Uma copaíba parece ter sido plantada, uma vez que acredito já ter uma idade próxima da construção da Casa, mas outra que achei lá é mais jovem, e talvez tenha sido disseminada a partir dessa mais velha. Vale a visita!

Exemplar mais antigo de Copaiba (Copaifera langsdorffii)

Exemplar mais jovem de copaíba, provavelmente filho da anterior

Grumixama (Eugenia brasiliensis), espécie nativa produtora de frutos apreciados pelas aves

Acredito ser uma goiaba-brava (Myrcia tomentosa), espécie nativa da mesma família da grumixama (Myrtaceae), também produtora de frutos que atraem aves

Guapuruvu (Schizolobium parahyba), espécie pioneira nativa

Pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha), espécie nativa com tronco bem característico

Jambo-amarelo (Syzygium jambos), espécie da Índia e Malásia bastante cultivada no Brasil. Seus frutos são consumidos por diversos animais.

Imponente exemplar de Agathis robusta, espécie australiana da família das araucárias.

Vista da Agathis através do quarto superior

Uma das entradas da Casa Modernista

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2 respostas para O bosque da Casa Modernista

  1. realmente isso é moderno ! a gente logo percebe vendo a relação do homem com a natureza o compromisso em manter vivo o que também faz parte de nós!!!

  2. Pingback: O bosque modernista de Mina Klabin e Warchavchik • Jardim de Calatéia

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