O dilema das árvores nativas versus exóticas

Hoje o desafio é escrever em poucas palavras o que eu transformaria em uma tese, de tanta informação para ser apresentada e debatida. Empenharei esforços apenas para introduzir o assunto, já que certamente ele voltará em futuros posts. E o tema é: árvores exóticas versus árvores nativas, lembrando que isso se aplica a todos os outros tipos de plantas e animais, já que o conceito é o mesmo. As nativas, vale lembrar, são as espécies com ocorrência natural em nosso país, enquanto as exóticas não ocorrem naturalmente por aqui, ou seja, foram introduzidas por alguém. As espécies nativas tiveram sua história evolutiva aqui e constituem a nossa biodiversidade. As exóticas começaram a ser em trazidas pelos colonizadores portugueses, tanto da própria Europa como de locais por onde eles passavam. Mais tarde, os imigrantes (principalmente europeus e japoneses) trouxeram outras tantas espécies, configurando um processo de introdução de espécies exóticas que se estende até hoje. Muitos paisagistas, como Burle Marx, também se utilizaram de exóticas, contribuindo para a difusão das mesmas em nosso território. Mesmo no início do século passado, quando São Paulo experimentou um enorme crescimento, o concreto ocupou o lugar dos remanescentes florestais nativos e espécies exóticas foram priorizadas na arborização urbana, como tipuanas (Bolívia), flamboyans (Madagascar), alfeneiros (Japão), cássias (Ásia), figueiras (Índia), eucaliptos, casuarinas e palmeiras seafórtias (Austrália), ciprestes (Portugal), etc. Consequência disso é que as espécies exóticas são maioria no espaço urbano da nossa cidade, desempenhando inúmeras funções, como ornamentação, sombreamento, barreira contra vento, fornecimento de fruto e madeira, etc.. De tão comuns, atualmente se encontram arraigadas na cultura popular de tal forma que é difícil sabermos quais espécies são nativas e quais são exóticas. No entanto, os processos mencionados acima contribuíram não só para a extinção de parte da nossa flora nativa, como também da fauna que coevoluiu com ela, sobrando algumas espécies mais plásticas e generalistas, como as que vemos pela cidade hoje em dia. Daí a questão: se todas as plantas são lindas e importantes pelos serviços ambientais prestados, para quê a distinção entre exóticas e nativas? Simples: para reparar parte da histórica injustiça contra as nossas espécies e dar-lhes o devido valor, entendendo que existem períodos diversos na construção de uma nação e que esse é o momento das nativas. E devolvo com outra pergunta: para que tanta espécie exótica se São Paulo tem o privilégio de estar localizada em um planalto entre a Serra do Mar e a Cantareira, onde originalmente havia uma vasta floresta ombrófila densa, genericamente denominada Mata Atlântica, bioma que detém uma das maiores biodiversidades do planeta?!? Isso sem mencionar os remanescentes naturais de cerrado que também ocorriam e ocorrem em São Paulo, contribuindo ainda mais para a heterogeneidade ambiental e biodiversidade. Não seria coerente se, aos poucos, fôssemos substituindo as exóticas por nativas conforme os espécimes mais velhos forem completando seus ciclos de vida? Trazendo a vegetação nativa de volta para a cidade estaremos contribuindo também para o retorno de muitas espécies da nossa fauna, que poderiam tranquilamente dividir o espaço urbano com a gente de forma mais justa e equilibrada. Parece simples, mas não é, pois exige uma mudança de paradigmas que afeta vários setores, desde nossos hábitos alimentares até os estéticos, passando por outros tantos. Exemplos: 1) apesar de termos centenas de espécies nativas que produzem frutos comestíveis, apenas três das vinte frutas mais consumidas no Brasil são nativas! (informação de @ricardocardim); 2) apreciamos lindos projetos paisagísticos com espécies exóticas e não sabemos que existem espécies nativas equivalentes que desempenhariam a mesma função estética; 3) plantamos aquele Ficus e aquele pinheiro que sobrou do Natal no chão e não damos conta que são espécies exóticas invasoras; 4) plantamos palmeiras exóticas e invasoras (como a super agressiva seafórtia) e incluímos na lista de extinção do Estado a nativa palmeira-juçara, lindíssima e cujos frutos alimentam centenas de espécies animais da Mata Atlântica. E por aí vai. Para finalizar, deixo claro que não se trata de uma guerra declarada contra as espécies exóticas, mesmo porque reconheço a importância delas, apenas peço por um despertar em relação as nossas nativas, e que na balança elas sejam priorizadas em detrimento das “gringas”.

Algumas desvantagens das exóticas:

– são menos adaptadas às condições ambientais daqui e por isso mais sujeitas a doenças, cupins e outros males;

– muitas espécies possuem comportamento agressivo, se dispersam facilmente, competindo com as nossas nativas e muitas vezes as substituindo;

– são menos atrativas para a fauna local que coevoluiu com as nossas nativas

Algumas vantagens das nativas:

– são mais adaptadas às nossas condições ambientais e por isso mais resistentes;

– são fonte de alimento e abrigo para inúmeras espécies animais;

– proporcionam o resgate da nossa biodiversidade tão rica e ameaçada.

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Uma resposta para O dilema das árvores nativas versus exóticas

  1. nada melhor do que um lugar 100 % nativo ,aqui na minha cidade tenho um sítio com uma vasta área verde prioriso sempre as árvores nativas como a araucaria o cedro-rosa ,o angico-vermelho ,más tenho sempre o trabalho de multilar as árvores exóticas e invasoras que nascem pelo meio e que se deixar, crescem e cobrem a visão das nativas sufocando-as .As espécies que mais invadem o bosque são a leucena ,uva do japão e a grandiúva.

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