Vaga de pesquisador para projeto de pesquisa sobre Licenciamento Ambiental do Grupo de Direitos Humanos e Empresas – FGV

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Bons exemplos verdes de Nova York

Em uma metrópole que cresceu sem o planejamento adequado, como São Paulo, a implantação de alternativas sustentáveis para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos representa um desafio muitas vezes encarado como impossível. É inevitável, por vezes, desejar derrubar tudo e construir a cidade novamente, só que de forma planejada. Apesar dos erros que se apresentam em todos os cantos e esquinas, nossas energias devem ser canalizadas na tentativa de arregaçar as mangas e remediar o que está feito, preservando o bom da nossa história e cultura, mas ao mesmo tempo abrindo espaço para mudanças de paradigmas e comportamentos que resultarão na transformação criativa do ambiente urbano. Diferenças geográficas e culturais a parte, diversas cidades pelo mundo também nos brindam com inúmeros exemplos de boas iniciativas, e a escolhida para cumprir esse papel dessa vez é Nova York. Assim como São Paulo, Nova York é uma gigante repleta de concreto e espigões, mas que se bem explorada nos mostra bons exemplos com grande potencial de aplicabilidade em outras cidades, como São Paulo, desde que adaptadas, é claro, às condições físico-culturais locais.

Esse texto se restringirá a Manhattan, a ilha que concentra a maior densidade populacional da cidade de Nova York e onde tudo acontece. Iniciemos então falando do óbvio, os parques e áreas verdes da Big Apple. O mais notório, todos sabem, é o Central Park, o imenso parque localizado no centro da ilha e, por isso, tido como o coração verde de Manhattan. Sua dimensão, de 3,4km², é duas vezes maior que a do Parque Ibirapuera, seu equivalente paulistano. Se o centro da cidade é verde, assim também é parte do seu perímetro. O Hudson River Park e Riverside Park, a oeste, o Battery Park e o Brooklin Bridge Park, ao sul, e o East River Park, a leste, contornam a ilha espremidos entre as grandes avenidas e as águas do estuário do rio Hudson. Funcionam como o que chamamos aqui no Brasil de “parques lineares”, e proporcionam áreas de lazer, esportes e contemplação para a população. Inevitável não imaginar como melhoraria a qualidade ambiental de São Paulo e a vida dos paulistanos se esses parques fossem implantados nas margens dos rios Tietê e Pinheiros e nas represas Billings e Guarapiranga. Além desses parques, Nova York possui praças como a Madison Square Park, ao sul, e belas áreas verdes como o Jardim Botânico, ao norte.

Porém, o que quero destacar aqui são duas ações incríveis que servem de exemplo para qualquer cidade caótica do mundo. Comecemos falando da High Line, o parque instalado sobre uma linha férrea suspensa que cortava os bairros de Chelsea e Meatpacking District e que foi desativada em 1980. Após anos de abandono, moradores da região iniciaram um movimento, abraçado pelo poder público, que, a partir de 2000, iniciou o projeto de transformação da via elevada em área para uso público. Após o município ter adquirido a linha férrea da empresa CSX Transportations e ter selecionado projetos de arquitetura e design, finalmente a High Line foi implantada e inaugurada em 2009. Atualmente, se estende por 24 quadras, entre a West 10th Street e a 34th. Constitui-se por passeios calçados cercados por lindos canteiros de flores e folhagens, com áreas de descanso e alimentação, transformando-se em um oásis urbano. Imagine a diferença para os moradores que avistavam a via férrea das suas janelas e hoje apreciam um belíssimo jardim suspenso! Inevitável não pensar no Minhocão de São Paulo (Elevado Costa e Silva). Seria uma alternativa para aquela ode ao mau gosto, não?

Por fim, um outro grande exemplo. Em vários pontos da cidade, em especial nos bairros de East Village e Lower East Side (esse de origem operária e imigrante), moradores ocuparam terrenos baldios e os transformaram em verdadeiros jardins comunitários. Possuem usos múltiplos de acordo com os desejos e necessidades dos moradores responsáveis por sua manutenção, podendo possuir jardins, hortas, fontes de água, árvores, áreas de descanso, mesas e bancos para refeição, etc. Na Europa isso é muito comum, assim como em outras localidades dos Estados Unidos. Aqui no Brasil é mais incipiente, mas já existem ações nesse sentido. Essas iniciativas serão tratadas em posts futuros. Por hora, uso os jardins comunitários nova-iorquinos como bons exemplos de uso comum do espaço público, onde os moradores locais são responsáveis pela manutenção voluntária dessas áreas verdes antes abandonadas, auxiliados e respaldados pelo município através do Green Thumb. São mais de 500 jardins espalhados pela cidade, promovendo a qualidade de vida, a biodiversidade urbana e a coesão social. Um bom exemplo não?

Essa foto ilustra a dimensão do imenso Central Park cravado no meio de Manhattan

O Hudson River Park se estende por quilômetro ao longo do rio Hudson e possui árvores, jardins, ciclovia, áreas de alimentação, lazer, esporte e recreação

O lado leste da ilha de Manhattan também possui parques lineares, como o East River Park

Nova York está repleta de jardins comunitários, normalmente sinalizados com uma placa como a da foto, indicando o nome do jardim e um pouco da sua história

Esse jardim comunitário em Lower East Side é mantido por crianças, que cultivam inclusive ervas utilizadas em pizzas

Esse lindo jardim comunitário possui algumas árvores grandes com placas indicando a espécie e data de plantio

Mais um jardim comunitário em Lower East Side

Esse jardim comunitário ilustra a presença dos imigrantes que residem em Lower East Side

Os jardins comunitários diferem bastante entre si. Esse possui canteiros suspensos e estufas

Esse jardim comunitário é mais amplo e possui maior trabalho paisagístico

A High Line é um excelente exemplo de transformação do espaço público

Essa foto ilustra a disposição da via suspensa antes utilizada para transporte de trem, atualmente ocupada pela High Line

High Line, o parque suspenso de Nova York

A High Line acaba representando uma artéria verde que corta os bairros de Chelsea e Meatpacking District

Essa estrutura metálica na High Line possui comedouros, bebedouros e abrigos para aves

Na High Line existem trechos com espécies arbóreas

Em alguns trechos da High Line os trilhos da antiga via férrea foram mantidos e integram o paisagismo

High Line

Essas esculturas no lindo Madison Square Park nos dizem muito...

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Flores que anunciam o fim do inverno e chegada da primavera

No fim do inverno, ainda é possível ver as últimas flores dos ipês amarelos e do ipê branco, enquanto os rosas e roxos, por começarem a florir antes, já estão sem flores e se enchendo de folhas. Mais alguns dias e teremos que esperar o inverno do ano que vem para ver nossos ipês nativos florirem novamente. No entanto, no finzinho do inverno algumas espécies comuns nas ruas de São Paulo começam a florir, anunciando a chegada da primavera.

Uma dessas espécies é também um ipê, mas não brasileiro. O ipê-de-El-Salvador (Tabebuia pentaphylla) é bastante comum na arborização de São Paulo, e difere dos nossos ipês nativos por apresentar folhas maiores e por florir geralmente com parte das folhas nas árvores, ao passo que os nossos perdem todas as folhas antes de florir. Outra diferença é que o ipê-de-El-Salvador floresce na primavera, e por isso é fácil observá-los agora pelas ruas, começando a se encher de cachos cor-de-rosa. Apesar de lindos, são exóticos e perdem em beleza dos nossos ipês, sem dizer que é um toque especial uma árvore nos dar sombra no verão com sua copa cheia de folhas e, no inverno frio, se despir de folhas e se cobrir de flores para que tenhamos sol e cor!

Outra espécie muito comum é o jacarandá-mimoso (Jacaranda mimosifolia), que perde todas (ou quase) suas folhas no inverno e se enche de pequenas flores em tom azul-violeta na primavera. A árvore é de extrema beleza, e suas flores tem aspecto semelhante a dos ipês, uma vez que pertence a mesma família, das Bignoniáceas. Assim como o ipê-de-El-Salvador, o jacarandá-mimoso também é uma espécie exótica, oriunda da Argentina, Paraguai e Bolívia. A espécie foi muito plantada na metade do século passado, principalmente em bairros novos da época e em áreas verdes, como no Parque do Ibirapuera. Mais uma vez, esse exemplo ilustra a preferência da época por espécies exóticas em detrimento de nativas equivalentes que cumpririam o mesmo papel. Nesse caso, temos lindos jacarandás nativos de beleza semelhante, como as carobas (Jacaranda macrantha, Jacaranda micranta e Jacaranda puberula). Outra caroba, Jacaranda cuspidifolia, é a mais bonita dessas e bastante parecida com o jacarandá-mimoso. Embora não seja nativa da cidade de São Paulo, ocorre em outras regiões do estado e é uma opção para o lindo Jacaranda mimosifolia.

A terceira espécie que está começando a florir e está por todos os lados é a sibipiruna (Caesalpinia pluviosa). Trata-se de uma espécie brasileira, que ocorre no Pantanal e na Mata Atlântica entre Rio de Janeiro e Bahia, não chegando a São Paulo. Ainda assim, é uma belíssima árvore que substitui bem a boliviana tipuana (Tipuana tipu), uma das três espécies mais abundantes de São Paulo. A sibipiruna possui folhas compostas bem pequenas e flores amarelas em racemos apicais bem característicos.

Por fim, uma espécie nativa que está começando a florir em São Paulo é o pau-formiga (Triplaris americana). A espécie é dióica, ou seja, possui indivíduos masculinos com flores masculinas pouco chamativas e indivíduos femininos com inflorescência avermelhada e mais vistosa. É uma boa árvore para as cidades, com tronco bem ereto e copa estreita em formato quase colunar. O nome se dá por apresentar tronco oco habitado por formigas, de forma semelhante às embaúbas. Lembrando que formigas em certa quantidade ajudam a manter a cadeia trófica da fauna urbana.

Muitas outras espécies começam a florir agora, mas por enquanto podemos procurar essas pela cidade e apreciar a beleza de suas florações.

Os ipês amarelos (Handroanthus sp.) florescem no inverno e no início da primavera ainda dá para ver alguns com flor.

O ipê branco (Handroanthus roseoalba) também floresce no inverno até o início da primavera.

O ipê-de-El-Salvador (Tabebuia pentaphylla) é uma espécie originária da América Central e floresce na primavera. Estranho que essa espécie exótica seja tão comumente utilizada na arborização urbana do Brasil, país dos ipês.

O ipê-de-El-Salvador normalmente floresce com parte das folhas sem cair.

O jacarandá-mimoso começa a florir no fim do inverno e início da primavera. Suas flores azul-violetas se destacam na paisagem urbana nessa época do ano.

Jacarandá-mimoso (Jacaranda misosifolia) no Parque do Ibirapuera

Detalhe das flores do jacarandá-mimoso. É possível observar os frutos em forma de cápsulas achatadas, bem característicos, usados em artesanatos como bijuterias.

A sibipiruna (Caesalpinia pluviosa) é uma das árvores brasileiras mais comuns nas ruas das cidades, inclusive São Paulo. Possui um belo porte semelhante ao da tipuana, e suas flores amarelas são bem características.

Pau-formiga (Triplaris americana). Essa árvore nativa possui formato de tronco e copa característicos e floresce no início da primavera também. O exemplar da foto é fêmea, fácil observar pelas inflorescências alaranjadas.

Na foto alguns exemplares de pau-formiga no Parque do Ibirapuera. As inflorescências dos machos são bem mais discretas.

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Espécies exóticas invasoras: conheça para não plantar

Em um país como o Brasil, que detém uma das maiores biodiversidades do mundo, não falta opções de espécies de árvores nativas indicadas para a arborização urbana, como já mencionei em posts anteriores e na página “Faça sua parte”. Apesar disso, o nosso hábito ancestral de carregar conosco espécies que conhecemos para novos lugares explorados, intercambiando muitas delas e até estabelecendo redes tradicionais de reciprocidade, culminaram nessa miscelânea de espécies nos ambientes alterados pelo homem, rurais ou urbanos, se estendendo até em áreas de florestas que muitos julgam erroneamente como sendo virgens ou intocadas. Consequência disso, são inúmeros os exemplos malsucedidos de introdução de espécies exóticas, muitas vezes resultando em competição com nossas nativas e até extinguindo algumas. Lembrando que espécies exóticas são aquelas presentes fora da sua área natural de distribuição presente ou passada.

 

Em São Paulo, a maior parte das árvores presentes nas nossas calçadas e áreas verdes é constituída por espécies exóticas, algumas consideradas invasoras devido ao seu comportamento agressivo e competitivo que não raro resulta na eliminação de espécies nativas. Prova disso é que a invasão de espécies exóticas em um determinado ambiente é a 2ª maior causa da perda de biodiversidade no planeta. Não obstante, as espécies invasoras produzem mudanças nas cadeias tróficas, na estrutura, nos processos evolutivos, na dominância, na distribuição da biomassa e nas funções de um dado ecossistema, provocando também alterações nas propriedades ecológicas do solo e na ciclagem de nutrientes. Por fim, essas espécies podem produzir híbridos ao cruzar com nativas e eliminar genótipos originais, ocupando o espaço de espécies nativas e levando-as a diminuir em abundância e extensão geográfica, aumentando os riscos de extinção de populações locais.

 

Na tentativa de reverter esse processo, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente do município de São Paulo estabeleceu em 2009 a Portaria 154/09, disciplinando medidas visando à erradicação e ao controle de espécies vegetais exóticas invasoras. Assim, instituiu também a Lista de Espécies Vegetais Exóticas Invasoras do Município de São Paulo, constituída até o momento pelas seguintes espécies arbóreas:

 

Acácia-Negra – Acacia mearnsii

Alfeneiro – Ligustrum japonicum, Ligustrum lucidum, Ligustrum vulgare

Eucalipto – Eucalyptus robusta

Falsa-seringueira – Ficus elastica

Figueira – Ficus benjamina

Leucena – Leucaena leucocephala

Palmeira Seafórtia – Archontophoenix cunninghamiana

Pinheiros do gênero Pinus – Pinus caribaea, Pinus elliottii, Pinus taeda

 

Todas essas espécies listadas são bastante comuns em São Paulo e em muitas cidades do país, mas gostaria de destacar a presença da figueira asiática Ficus benjamina, certamente uma das 3 espécies mais comuns nas nossas calçadas. A principal causa disso decorre do hábito de muitas pessoas plantarem no chão aquele arbusto que vem crescendo há anos no vaso e, já maiorzinho, “merece” ganhar vida livre no solo. Prova disso é que Ficus benjamina é a árvore mais fácil de ser encontrada em lojas de plantas e supermercados, tanto a variedade de folhas verdes como a de folhas rajadas de verde e branco (variegata). Muitos também plantam propositalmente o Ficus na calçada para que tenha aquele aspecto de “cotonete”, uma vez que a espécie tolera bem podas. Eu particularmente acho de extremo mal gosto uma árvore podada com formas geométricas, sem dizer que isso maltrata a árvore, tira o aspecto natural da sua copa e ainda diminui os serviços prestados por árvores com copa larga, como sombreamento e filtragem de poluentes. Além disso, trata-se de uma espécie de grande porte, com troncos adultos bastante largos e raízes agressivas que comprometem tubulações subterrâneas e equipamentos públicos, como muros, ruas e calçadas. Enfim, é mais uma espécie exótica invasora que deve, no máximo, ser mantida apenas em vasos. Chega de plantá-las equivocadamente no chão.

 

Os pinheiros do gênero Pinus passam por processo semelhante, afinal, quantas pessoas já não plantaram no chão o pinheirinho que comprou para o Natal e depois ficou esquecido no quintal? Mais um erro! Os pinheiros são originários do Hemisfério Norte e suas folhas possuem efeito alelopático, ou seja, quando caem eliminam substâncias no solo que inibem o desenvolvimento de outras espécies de plantas, por isso é comum vermos bosques de pinheiros sem sub-bosque. Aqui no Brasil, os pinheiros são amplamente cultivados nas zonas rurais para a produção de madeira e celulose. Nas cidades, são comuns em quintais e áreas verdes.

 

O eucalipto também é cultivado para a produção de celulose, mas também é presente em muitas áreas verdes e parques da cidade. No Parque do Ibirapuera, por exemplo, os eucaliptos foram plantados no século passado para drenar o solo, uma vez que a região era formada por áreas alagadiças e brejosas. As espécies do gênero Eucalyptus são originárias da Austrália, possuindo porte bastante avantajado e com grande demanda de água. Não que o eucalipto consuma mais água que outras espécies, mas o fato é que sua fama de beberrão que seca o solo contribuiu para sua dispersão no processo de ocupação e transformação do ambiente urbano.

 

A falsa-seringueria é uma árvore enorme, originária da Ásia Tropical e comum em calçadas e áreas verdes de São Paulo. Como foi plantada sem planejamento no século passado, hoje podemos ver velhos exemplares e verificar o quão imprópria é a espécie no ambiente urbano. Seus troncos possuem diâmetros enormes que obstruem calçadas, além de raízes agressivas que comprometem tubulações subterrâneas, meios-fios, ruas, muros e calçadas. Enfim, um bom exemplo de espécie que não devemos plantar.

 

A palmeira-seafórtia é originária da Austrália e muito abundante em São Paulo. Parte delas sequer foi plantada, simplesmente são fruto do alto poder de dispersão e colonização da espécie, que se desenvolve até em áreas verdes não manejadas, competindo com palmeiras nativas e eliminando-as. No bosque da biologia, no campus da USP no Butantã, existe um programa de pesquisa e manejo da palmeira-seafórtia visando conhecer a ecologia da espécie e adotar medidas de controlar suas populações.

 

Já o alfeneiro (Ligustrum japonicum) é uma árvore originária do Japão e uma das espécies mais comuns nas calçadas de São Paulo, consequência da fama que a árvore ganhou como espécie ideal para ser utilizada na arborização urbana. Seus frutos são dispersos por aves, contribuindo para que a espécie colonize áreas verdes e ocupe o espaço de nativas. Mais um engano que se espalhou pela cidade…

 

Em suma, essa lista é bastante enxuta e deverá ser constantemente revisada e ampliada, dado o grande número de espécies exóticas que ameaçam a existência das nativas, principalmente no ambiente urbano. De qualquer forma, é sempre bom que o cidadão pesquise a origem e características fenotípicas e ecológicas das espécies antes de plantá-las. Exemplos de plantios inconsequentes e os resultados catastróficos disso são abundantes.

O famoso Ficus benjamina encontrado a venda até em supermercados. Seu tronco pode ser reto ou retorcido, como esse da foto.

 

O mesmo Ficus benjamina pode apresentar variedades com folhas verdes rajadas de branco (variegata), como ilustrado na foto.

 

Ficus benjamina plantado em uma calçada, com a horrenda poda que deixa a árvore com aspecto alienígena.

 

Um exemplar adulto de Ficus benjamina em uma calçada. Suas raízes quebram calçadas, elevam o asfalto de ruas e atingem tubulações.

 

Exemplo de Pinus plantado em quintal. O pinheirinho de Natal cresce muito e se dispersa facilmente.

 

Um jovem eucalipto plantado em um canteiro da Marginal Pinheiros. Essa espécie australiana é muito abundante em áreas verdes de São Paulo.

 

Falsa-seringueira (Ficus elastica) plantada em uma calçada de São Paulo. Essa árvore enorme é um exemplo de espécie absolutamente inadequada para a arborização urbana.

 

Vista aproximada da falsa-seringueira para ilustrar o que acontece com o "passeio livre" da calçada. Sem dizer que muro, calçada e rua estão em parte comprometidos.

 

Palmeira seafortia, espécie australiana de fácil dispersão, coloniza áreas verdes e compete com nossas nativas.

 

Alfeneiro, espécie originária do Japão amplamente utilizada na arborização urbana de São Paulo e de muitas cidades brasileiras.

 

Detalhe do fruto do alfeneiro, no inverno as árvores se enchem de cachos com esses pequenos frutos arroxeados.

 

 

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Calçadas verdes e passeios livres – árvores e pessoas

Em metrópoles como São Paulo, que priorizam o transporte automotivo, as calçadas, destinadas ao trânsito de pedestres, acabam espremidas e mal planejadas, e quem sofre é o cidadão que circula a pé pela cidade. Não é difícil encontrarmos calçadas extremamente estreitas, esburacadas, inacessíveis para pessoas com deficiência de locomoção, sujas e cheias de obstáculos. Vez ou outra, topamos até mesmo com a ausência de algo ínfimo que possamos chamar de calçada!

Desde 2005, é bom saber, existe o programa Passeio Livre em São Paulo, que propõe um novo conceito de passeio público, padronizando as calçadas, organizando a localização do mobiliário urbano, melhorando a drenagem e garantindo a livre circulação de pedestres e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. As normas de acessibilidade e as dimensões e materiais adequados para implantação de calçadas foram estabelecidas através do Decreto 45.904/05 (http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/passeiolivre/pdf/Decreto.pdf), assim como foi proposto um Termo de Cooperação visando criar parceria com a iniciativa privada para reconstruir calçadas (http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/passeiolivre/pdf/termo_cooperacao.pdf).
Desde então, o município vem readequando suas calçadas, embora não seja difícil encontrar erros de implantação e falta de manutenção. Para agravar o quadro, grande parte das calçadas na cidade está na frente de imóveis particulares (comerciais ou residenciais), cujos proprietários são os responsáveis pela conservação, manutenção e reforma da sua calçada, e, por isso, passíveis de multas. Infelizmente, a maioria esmagadora dessas calçadas está claramente em situação irregular ou em mau estado de conservação. Embora o Decreto 45.904/05 garanta a padronização das calçadas, um projeto de lei (PL nº 409/2010) foi aprovado pela Câmara Municipal em novembro de 2010 e sancionado em 09/09/2011 pelo prefeito Kassab. Esse PL estipula o aumento do espaço das calçadas para 1,20 m e aumenta o valor das multas. O Disk-Calçada, previsto no PL para atendimento das reclamações da população e fiscalização sobre a construção e conservação das calçadas, foi o único ponto alterado pelo Kassab. Assim, não haverá mais uma linha específica e as denúncias e reclamações sobre calçadas deverão ser feitas pelo serviço 156 da Prefeitura. Falta agora a regulamentação.

Até o momento, a fiscalização não tem sido adequada e as multas são ínfimas perto do gigantesco número de casos irregulares. Em 2009, segundo a Prefeitura de São Paulo, foram 1.052 multas, e, em 2010, 4.890, sem contar as autuações, dadas quando os proprietários são apenas notificados e um prazo lhes é dado para regularizar suas calçadas. No entanto, é legal enfatizar que anteriormente a aplicação de multas, o mais correto seria a implementação de um amplo programa de comunicação e divulgação para conscientização e sensibilização do cidadão acerca da problemática, estimulando ações voluntárias por toda a cidade. Nesse sentido, a Prefeitura de São Paulo elaborou uma cartilha para auxiliar o munícipe a padronizar a sua calçada (http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/passeiolivre/pdf/cartilha_passeio_livre.pdf). Além disso, as novas edificações e empreendimentos imobiliários na capital já são orientados a padronizarem suas calçadas, e aqueles que precisam manejar árvores para suas obras são obrigados a obterem autorização mediante Projeto de Compensação Ambiental (Portaria SVMA 44/2010), que inclui Projeto de Calçada Verde.

Apesar de todo esse aparato legal, os exemplos de irregularidades são extremamente comuns, inclusive das calçadas que foram refeitas para atender ao novo padrão. Mesmo em casos de compensação ambiental, é fácil observar o plantio de mudas na nova calçada em número bem superior ao adequado, em clara manobra de tentar fazer caber ali a quantidade de mudas compensatórias estipuladas pelo órgão ambiental, desrespeitando as medidas mínimas exigidas para arborização urbana e fingindo não prever a disputa por espaço pelas copas das árvores adultas.

Para ser mais didático, é legal dizer que as calçadas, também denominadas passeios públicos, constituem a parte da via pública destinada à circulação de pessoas. As calçadas verdes aqui discutidas são faixas dentro desses passeios públicos onde é possível ajardinar e arborizar, e são mais adequadas nas ruas onde não ocorre um fluxo muito grande de pedestres. Essas calçadas verdes podem ser implementadas nas faixas de Serviço (aquela mais próxima do meio-fio) e de Acesso (mais próxima da edificação), desde que a calçada possua largura mínima de 2,5 m. Aquelas calçadas com largura entre 2 e 2,5 m devem ter apenas 1 faixa de ajardinamento, desde que não interfiram na faixa livre que deverá ter sempre largura mínima de 1,20 m. Os munícipes que tiverem calçadas com largura inferior a 2,0 m devem procurar a subprefeitura para que técnicos avaliem a situação e encontrem uma alternativa mais adequada.

Exemplo de calçada com passeio livre central de 1,20m e faixas de Serviço e de Acesso (fonte: PMSP: Cartilha do Passeio Livre)

Como explicado acima, as calçadas verdes não só garantem uma ou duas faixas ajardinadas e arborizadas, como também promovem o aumento da permeabilidade do solo, prestando grande serviço para a cidade que vive o caos na época das chuvas, sem dizer que garantem aeração e água para o bom desenvolvimento das árvores. Os problemas mais comuns nessas calçadas verdes são vários, como excesso de mudas de árvores ou falta delas, presença de arbustos que dificultam o acesso no passeio livre, plantio de espécies de árvores não apropriadas, etc. Ainda assim, as calçadas verdes já são um avanço e se bem implementadas só melhorarão a qualidade de vida na cidade.

Em relação à arborização nas nossas calçadas, o problema maior que quero enfatizar aqui é o das árvores localizadas fora de calçadas verdes, tanto em passeios estreitos como nos mais largos de vias movimentadas. Nesse caso, as árvores devem ter no mínimo 1 m² de área permeável ao redor, sem concreto até a base do tronco e sem muretinha em volta que prejudique a drenagem de água de chuva. Não preciso nem dizer que esses são os casos mais comuns na cidade né? O concreto até a base do tronco da árvore, é fácil imaginar, prejudica a aeração do solo e a absorção de água, fundamentais para o bom desenvolvimento das árvores. A muretinha ao redor, mesmo que forme um canteirinho, também prejudica o acesso da árvore à água, além de perder a função de drenar as águas das chuvas. O certo é manter a área permeável ao redor da árvore no nível da calçada, podendo ser ajardinada ou coberta por grelha (grade) que possibilite o trânsito de pessoas e garanta a permeabilidade e aeração do solo. Essas medidas ajudam na manutenção de árvores saudáveis, evitando os tantos casos de queda de árvores doentes e maltratadas.

A seguir ilustro alguns casos que encontrei em um simples passeio com o meu cachorro pelas quadras ao redor da minha casa. Como acredito que devemos sempre tentar chegar antes a acordos através do diálogo e do acesso ao conhecimento, conversarei primeiro com síndicos e comerciantes para expor os problemas de suas calçadas. Se não se mobilizarem para readequá-las, aí sim apelarei para os serviços do 156.

Nesse exemplo, podemos ver a faixa de acesso gramada e a de serviço com jovens mudas com área permeável adequada ao redor. O passeio livre me parece que ficou com menos de 1,20m. Seria pedir demais? rs

Merchandisig a parte, o exemplo aqui é do uso de grelha (grade) ao redor da árvore, garantindo a aeração do solo e drenagem de água, assim como facilitando o transito de pedestres na calçada (foto: Google)

A muretinha ao redor da árvore é um exemplo do que não fazer, além de ter pouco espaço para garantir a aeração e entrada de água no solo, a água das chuvas não drena para essa área permeável. Outro erro é a presença de Ficus benjamina, espécie exótica e invasora aqui em São Paulo.

Exemplo de uma calçada verde em duas faixas recém implementada em frente a um condomínio de luxo em Moema

Um erro clássico espalhado por toda a cidade: concreto até a base do tronco das árvores, sufocando e comprometendo a saúde do exemplar. Outro erro: escolha errada de espécie para arborização urbana, no caso, um Ficus microcarpa.

Nesse exemplo, a vítima é esse lindo pau-ferro (Caesalpinia ferrea)

Mais um exemplo de calçada assassina de árvore. Outro erro de brinde: pintar base de árvore com cal ou tinta NÃO PODE! É feio, sem utilidade e ainda pode prejudicar a saúde da árvore. Quem inventou essa moda?

Sem comentários...

Coleção de erros: 1) Ficus benjamina plantado em calçada e embaixo de fiação elétrica, 2) Árvore plantada praticamente no meio-fio e muito próxima demais do poste (a distância deveria ser de pelo menos 3 m), 3) Cadê a área permeável na calçada para a árvore?

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Árvores em filmes

As árvores e áreas verdes despertam uma série de sentimentos nos seres humanos, que estabelecem diversas relações com elas, bem retratadas nas artes e literatura. Hoje focarei apenas na sétima arte, elencando alguns filmes que de alguma forma relacionam-se com árvores ou áreas verdes urbanas e rurais. Creio que essa lista é bem mais extensa, por isso aceito sugestões para incrementá-la. No entanto, essas poucas indicações valem a nossa audiência.

O Homem que plantava árvores (The Man Who Planted Trees) – 1987

Diretor: Frédéric Back; Texto: Jean Giono. País: Canadá.

Trata-se de um curta de animação vencedor do Oscar, cuja história é sobre o longo e bem sucedido esforço de um pastor em reflorestar um vale árido e desolado. O estilo de animação é maravilhoso, em tom embaçado e impressionista, somado a um efeito enigmático. O filme possui cerca de 30 minutos de duração e vale a experiência. Achei o filme legendado dividido em 3 partes no youtube, seguem os links:

http://www.youtube.com/watch?v=sFrLlAG7WaA&feature=results_video&playnext=1&list=PL63D89861EBBA1764

http://www.youtube.com/watch?v=QYFvUchMgcg&feature=results_video&playnext=1&list=PL63D89861EBBA1764

http://www.youtube.com/watch?v=akdkaK33Fdc&feature=results_video&playnext=1&list=PL63D89861EBBA1764

 

Avatar – 2009

Diretor: James Cameron. País: EUA.

O filme ilustra bem a conexão físico-química e energética dos humanoides azuis com o planeta que vivem (Pandora) e a forma como respeitam e veneram a natureza. Eu destaco a relação que possuem com a Casa da Árvore, cuja destruição poderia afetar a rede neural bio-botânica de Pandora, segundo a cientista Grace (adorei essa parte). A relação mágica com a Árvore das Almas é intrigante e psicodélica, também vale a experiência.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=1KsHbSIjbGo  

 

O Jardim (The Garden) – 2008

Diretor: Scott Hamilton Kennedy. País: EUA.

Documentário indicado ao Oscar que relata a luta de agricultores da região de Los Angeles contra a desapropriação. Após os motins ocorridos em 1992, o governo local implantou um projeto visando ocupar a população pobre rebelada através da concessão do direito de plantar em terrenos vazios, o que acabou criando o maior jardim urbano dos EUA. No entanto, anos depois conflitos de interesses acabaram comprometendo o processo, prevalecendo o interesse de especuladores e poder público. Apesar disso, muitos agricultores não desistiram e seguiram lutando. Vale assistir.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=LmEPigRmTXQ

 

A Cadeia Verde (The Green Chain) – 2007

Diretor: Mark Leiren-Young. País: Canadá.

O filme trata da batalha entre madeireiros e ambientalistas no Canadá, mostrando uma série de monólogos interligados com diversos relatos reais sobre o tema. O filme tem um viés sarcástico e irônico que me agrada, provocando quem assiste, independente se pende mais para os ambientalistas ou para a indústria madeireira.

Trailer 1: http://www.youtube.com/watch?v=MBSowgCJzPE&feature=related

Trailer 2: http://www.youtube.com/watch?v=pAwU5dX-w9w&feature=related

 

Lemon Tree – 2008

Diretor: Eran Riklis. País: Israel, Alemanha e França.

Trata-se de um filme de ficção baseado em fatos reais. A história começa quando o primeiro-ministro de Israel se muda para uma casa onde ao lado mora uma viúva palestina que cultiva limões. Ele vê o pomar como potencial local para terroristas se esconderem e atentarem contra a sua vida. Sua decisão, obviamente, é articular a destruição das árvores e a viúva se vê obrigada a enfrentar judicialmente o seu novo vizinho, na tentativa de evitar o corte dos limoeiros que herdou do pai e que tanto ama. O filme é lindo, envolve o amor por árvores e relações humanas dentro de um cenário político tenso. Ganhou, inclusive, o prêmio Panorama dado pela audiência do Festival de Berlim. Vale a pena assistir.  

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=GpxXp5XOqLw

 

Taking Root: The Vision of Wangari Maathai – 2008

Diretor: Alan Dater. País: EUA.

O documentário conta a história dramática de Wangari Maathai, uma ativista queniana que começou a plantar árvores voluntariamente e acabou gerando um movimento nacional em prol da conservação ambiental, promoção dos direitos humanos e defesa da democracia. Em 2004, ganhou o Nobel da Paz. É dela a frase: “As árvores foram parte essencial de minha vida e me ensinaram muitas lições. Elas são símbolos vivos de paz e esperança. Uma árvore tem suas raízes no chão e, mesmo assim, ergue-se para o céu. Ela nos diz que, para ter qualquer aspiração, precisamos estar bem assentados e que, por mais alto que possamos chegar, é de nossas raízes que tiramos nossa base de sustentação” (Wangari Maathai). Vale assistir o filme, assim como ler a biografia dessa mulher incrível.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=gzp_GYVv7y0

 

 

A Árvore (L’arble) – 2010

Diretora: Julie Bertucelli. País: França/Austrália.

O filme estava até a pouco tempo em cartaz, mas não confunda com outro filme: a Árvore da Vida. Em A Árvore, a história gira em torno de um casal que vive com seus quatro filhos, quando inesperadamente morre o pai. A família fica extremamente abalada, cada um tentando superar a fatalidade do seu jeito. O que mais encanta é a reação da filha de 8 anos, que evita enfrentar a morte do pai e acredita que o seu espírito vive em uma grande figueira no jardim, onde passa horas sentindo a presença do pai. Drama bom de assistir.

Trailer: http://cinema.uol.com.br/ultnot/multi/2010/11/17/040298336ED0A11307.jhtm

 

A Árvore da Música – 2009

Diretor: Otávio Juliano. País: Brasil.

O documentário aborda a importância do pau-brasil para a música erudita, e as consequências que a sua extinção pode trazer para a música. A madeira da árvore tornou-se vital para o som dos violinos e outros instrumentos de corda, que desde os tempos de Mozart, quando foi utilizado pela primeira vez, músicos e fabricantes de instrumento de todo o mundo ainda não descobriram uma madeira de qualidade comparável que pudesse substitui-lo. Muito bom.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=6c5VzZ3wJA4

 

The Healing Gardens of New York

Diretora: Alexandra Isles. País: EUA.

Documentário que aborda a transformação na vida das pessoas após a implantação de jardins em Nova Iorque. Fala da importância das áreas verdes urbanas como fonte de bem estar emocional e qualidade de vida. Ainda não consegui acesso a uma cópia, Se alguém tiver me avise.

 

Meu Pé de Laranja Lima – 1970

Diretor: Aurélio Teixeira. País: Brasil

Um clássico filme nacional baseado na obra de José Mauro de Vasconcelos. Conta a história de Zezinho, um dos filhos de uma família pobre que muda de casa e no quintal da nova moradia o menino encontra um pequeno pé de laranja lima. Depois do estranhamento com aquela arvoreta, Zezinho inicia uma relação de amizade e confidências com o vegetal. Vale a pena assistir de novo.

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Sabiá-laranjeira e a cidade

Restando pouco menos de um mês para o inverno acabar, já é possível escutar a cantoria dos sabiás-laranjeiras pela cidade. É nessa época do ano que se intensificam os cantos para demarcação de território e cortejo das fêmeas, principalmente no amanhecer e entardecer. No entanto, quem acorda de madrugada já consegue escutar alguns sabiás cantando bem alto.

Muitos não sabem, mas o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) é a ave-símbolo do estado de  São Paulo desde 1966, e a ave-símbolo do Brasil desde 2002. Em 2010, a Prefeitura do Município de São Paulo realizou concurso para eleger o animal símbolo da cidade, e o nosso sabiá ficou em terceiro lugar, perdendo para a suçuarana, ou onça-parda, felino avistado raríssimas vezes no sul da cidade, na APA Capivari-Monos.

O sabiá-laranjeira possui cerca de 25 cm e coloração parda com ventre ferrugíneo alaranjado, podendo viver até 30 anos. É uma ave muito comum por quase todo o Brasil, a exceção da Floresta Amazônica, e sua popularidade pode ser comprovada em diversas citações em canções e poemas que fazem alusão ao seu belo canto.

Para ouvir o canto do sabiá-laranjeira, clique http://www.youtube.com/watch?v=_vRGbRxVK50

A espécie possui uma dieta generalista, mais voltada ao consumo de frutos, minhocas e artrópodes, o que o torna mais apto a viver em ambientes urbanos. Embora tenha ocorrência natural em matas ciliares, cerrados e capoeiras, é bastante frequente em pomares, quintais, parques e praças das zonas rural e urbana. Na cidade de São Paulo é muito abundante, principalmente em bairros mais arborizados como Butantã, Alto de Pinheiros e Morumbi, ocorrendo também em bairros mais densamente ocupados, desde que com áreas verdes para oferecer-lhes abrigo e alimento. Por isso, acredito que seja possível usarmos o sabiá-laranjeira como um bioindicador quali e quantitativo da arborização urbana em São Paulo e em outras capitais, como Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte. Teríamos assim um gradiente da abundância de sabiás-laranjeiras proporcional à quantidade de áreas verdes nos diversos bairros da cidade. Assim, se você mora aqui na capital e não tem escutado e avistado sabiás, podemos chegar a triste conclusão que o seu bairro apresenta um déficit enorme de áreas verdes, provavelmente com poucas árvores exóticas que não alimentam a fauna. Por outro lado, quanto mais sabiás encontrar no seu bairro, poderemos concluir que mais e melhor arborizado deva estar o local.

Em um futuro próximo, espero, depois que tivermos sabiás em cada esquina da cidade, aí poderemos usar espécies mais exigentes como indicadores de um ambiente urbano mais verde, como a alma-de-gato (Piaya cayana), quem sabe, ou outra qualquer que seja apropriada para esse fim.

Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), ave-símbolo do Brasil e do Estado de São Paulo, bastante comum nos bairros mais arborizados da capital paulista. (Foto: Dario Sanchez)

Alma-de-gato (Piaya cayana), ave cuculiforme de ampla distribuição, ocorrendo também em áreas verde e bairros mais arborizados de São Paulo. (Foto: Célia Barcellos)

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